sexta-feira, 4 de setembro de 2009

"Adiamento"

"Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...

Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.

Só depois de amanhã...

Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã...

Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir."

(Álvaro de Campos, in 'Poesia de Fernando Pessoa', 2006, poesia escrita a 14/04/1928).

E porque adiamos para o amanhã e até mesmo para o depois de amanhã muita coisa... deixo aqui este poema de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa) para lerem e pensarem um pouco sobre o adiamento que muitas vezes fazemos no dia a dia e até mesmo durante a nossa vida... espero que gostem...:-)

7 comentários:

Vieira Calado disse...

Imparável!

Bom fim de semana!

cumprimentos meus

Andréa Amaral disse...

Álvaro de Campos é o meu heterônimo favorito do meu ídolo.
Este é um poema que todas às vezes que o leio, pressinto uma angústia muito grande no momento que acho que ele deva ter sido concebido.
Palavras que são sentimentos e ações vividas por qualquer um de nós e que se tornaram clássicas por serem nossas com nossas angústias.
Obrigada por mais essa, Alex. Você é demais.

Transmontana disse...

Eu gosto de viver o dia-a-dia e deixar para amanhã o pensar no depois de amanhã!
É uma forma de viver um dia de cada vez...
Lindo poema que eu não conhecia!
Parabéns pela escolha!
Tenha um bom fim de semana.
Anita

TERE disse...

Qualquer olhar por terras trasmontanas são do dito "Reino Maravilhoso", segundo Miguel Torga...Bom Domingo.

Tere ( Brigantina de origem...aliás babense)

Valentim Coelho disse...

Olá Alexandrina,
não conhecia o poema. Mas é bom para se refletir!
Uma boa semana para ti,
Beijinhos

aa disse...

Olá TERE,
bem vinda ao 'olhares soltos...' e ainda bem que gostou de algumas fotos que por aqui vão sendo colocadas deste "reino maravilhoso"...:-)


A todos o meu obrigado pela V/ visita... e os desejos de uma boa semana.
Beijos,

AA

José Filipe disse...

Olá Alexandrina.
Um poema, que li com interesse, e que me fez pensar um pouco, talvez a vida que vivemos seja um breve momento que merece ser vivido em toda a sua riqueza de sentimentos e de emoções, porque aparentemente penso que apenas estamos aqui uma única vez, semear hoje o amor, a paz e a amizade, é uma ideia que gostaria de partilhar, e deixar tudo o que é éfemero para amanhã, pois o amanhã é sempre incerto.
Obrigado por partilhar estas bonitas palavras, despeço-me com amizade, até breve.
Tudo de bom, com os meus cumprimentos.
Um abraço.

José Filipe 09-09-2009