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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

"Também este crepúsculo..."

"Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhai da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?"

(Pablo Neruda, in Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada)

terça-feira, 12 de julho de 2011

"Dissonância"

"É o mesmo rio a cantar contente,
E o mesmo ócio vegetal a ouvi-lo.
É o mesmo céu tranquilo
A reflectir-se na sua pureza.
E sou eu, na incerteza
Destes dias traídos,
A caminhar ao lado,
Desatento, alheado,
Sem ócio, sem pureza e sem ouvidos."

(Miguel Torga, in Poesia Completa, Volume II)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

"Dos «Poemas inconjuntos»"

"Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei,
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim, «sou eu».
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?"

(Alberto Caeiro, in 'Poesia de Fernando Pessoa', 2006, Dos «poemas inconjuntos» escritos entre 1913-1915).

Para acompamhar este poema de Alberto Caeiro, deixo aqui duas versões da mesma fotografia tirada a 20/09/2009 nas encostas do Douro, na freguesia de Beira Grande-Carrazeda de Ansiães.

BOM FIM DE SEMANA PARA TODOS OS VISITANTES!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Nem tudo é fácil"


"É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.

Se você errou, peça desculpas... É difícil pedir perdão?
Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o... É difícil perdoar?
Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga... É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça... É difícil ouvir certas coisas?
Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?

Nem tudo é fácil na vida...

Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar para que não apenas sonhemos,
Mas também tornemos todos esses desejos, realidade!!!"

(Cecília Meireles)



Fotografia tirada na cidade do Luxemburgo

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

"Surdina"


"Não há musas aqui.
Há sombras tutelares
A que vivo obrigado
E devotado,
E me inspiram também.
Mas tão contidamente
Que o meu canto
É sempre como um salmo murmurado
Num altar.
Assim breve e embargado
Para não perturbar
No presente o silêncio do passado."

(Miguel Torga, in Poesia Completa, Volume II, 2007, escrito em S. Martinho de Anta, 6 Abril de 1985)


Cruzeiro e igreja de São Martinho de Anta (concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real, Trás-os-Montes).

São Martinho de Anta, é o local de nascimento do escritor Miguel Torga, que apelidou Trás-os-Montes como "O Reino Maravilhoso"...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

"Loucos e Santos"


"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."

(Oscar Wilde)